"Depois de muito, muito tempo, a velha vontade volta. Na verdade, ela sempre acreditou que essa vontade tivesse permanecido adormecida em alguma parte do passado. Foi preciso que parte do passado, levasse com ele várias lágrimas e sussurros desesperados até que a vontade se manifestasse de novo.
Dessa vez, diferente. A vontade é manifesta noite após noite, beijo após beijo em cada boca vã cujos lábios de cigana resolvem descansar. Aos poucos, a vontade vai se desprendendo, se dissipando feito névoa em mar revolto. Evaporando junto com as memórias, foram-se os afetos e permaneceram as despedidas. De cigana, permanecem os olhos e os lábios, leves; oblíquos na linha do horizonte. Atenta a qualquer mudança de maré.
A menina volta a girar, a pequena dança, até levantar vento por si mesma. Sem fim. Agora é que a história começa. Azul é a cor mais inconsequente.
Ela crê nos encontros unidos pela vida, não foi à toa que foram parar naquela sessão, naquele filme, naquela boa sorte uma metáfora de vida. Não era sobre se apaixonar por quem está morrendo, mas era sobre criar laços, por menores que sejam, por quem partirá, em breve. Aquele mar leve que chegava até os seus joelhos, era o mesmo mar que meses antes a havia feito se afogar tantas vezes. O mar que batia nas pedras, molhava seus olhos de cigana, afogava as lágrimas de uma tempestade passada.
A vontade se sobrepunha às despedidas, pela primeira vez em tanto tempo desencontrado. Naquelas pedras, muitos se foram e outros nem sequer chegaram. Cigana sentiu o sal do tempo no rosto, nos cabelos e o mar leve parecendo uma ampulheta. O tempo passava e ele permanecia ali, por horas revolto, por horas ameno. E, pela primeira vez em tanto tempo, a solidão fez morada.
Cigana, então, entendeu que partimos para algo novo todos os dias, que é preciso re.acostu.mar-se, pois a hora do encontro é também despedida. Naquela praia, naquela rua, muitos começos. Na mesma praia, na mesma rua, muitas partidas. Não era mais sobre não conseguir criar laços com ninguém, agora é sobre criar laços diferentes com pessoas que, a cada dia, partem um pouco mais.
Cada encontro é também despedida. Naquela boa sorte, uma metáfora da vida: os dois seguem, separados, semeando encontros e colhendo despedidas. E, pela primeira vez em muito tempo, a solidão a fez sentir completa. Sem fim.
“Gire, pequena cigana, que girar faz vento em você mesma”."

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