Quando o mar se levanta junto com o corpo que repousa sobre ele, vem do outro lado as casas inundadas de areia, água e sal. O mesmo sal que desce dos meus olhos quando, neles, entra areia.
A água batia em minhas costas e passava por debaixo de mim, alinhava as pedras, turvava a visão. Era noite e a lua se escondia. Assim como também se escondia o inverno nos dentes, nos sorrisos que mordem e deixam gosto de sangue no beijo.
Repousar a cabeça e acariciar a têmpora como quem pede desculpas e reluta na insistência por meio de uma descrença infundada, oxalá inventada. Assim foi por muitas vezes apenas duas. Dois eram muitas coisas.
Aquele mar pesava, batia nas pedras, me molhava e trazia no sal as lágrimas da outra cidade inundada pelo seu aterramento. Crianças andavam sobre aquelas águas constantemente. Bêbados o urinavam de instante em instante. Diabos se atiravam daquela ponte o tempo inteiro.
Foi noutro dia que se repousava sob um sol que se esvaía na linha do horizonte infinda e quente. No toque sobrepujado de tal maneira a deixar na mão apenas rápidos lábios.
Esqueço nossos nomes em cortinas e véus, olhos fechados em solidão. Silêncio que invade e transborda toda a palavra, todo o sexo, todo o mundo.
Todo mundo é mundo, toda gente é linda.
Naquele mar muitos se foram e outros tantos nunca sequer chegaram, quiçá ousaram respirar aquele cheiro. Um cheiro no cangote, jogo vadio de abrir corpo fechado. Que corpo fechado que nada, ela estava nua!
E descabelada, e assanhada, os olhos fechavam com o toque de mãos aperreadas, torturadas, machucadas pelo tempo e pelo violão.
A solidão invadia junto com o silêncio e o mar às vezes batia forte na lua vadia, escondida, dissimulada.
Noites adentro com o pulsar da escuridão roubada pelas luzes dos postes na Praia de Iracema. Anoitecia em cada sorriso naquela praia inventada. Adormecia em cada peito daqueles moribundos olhos que escarneciam na grama vomitada dos monumentos municipais.
Uma praia inventada, ou melhor estuprada.
Uma praia afogada, tarde demais para se importar porque não havia ninguém por lá além dos casais também inventados.
As fotografias que se parecem e que causam desconforto. Peitos que doem, que respiram fundo, arquejam a dor de um gozo subtraído no esquema que desliza entre uma boca e outra, entre uma língua e outra, acompanhado de cerveja, coquetel composto e cachaça.
Mas em outrora apenas o silêncio e os olhos, as bocas que murmuravam impropérios existenciais sob o sol que esvai adiante na falsa segurança de se estar sentado sobre o mar. De se estar em zona de conforto subalterno nos dentes de inverno, nas bocas de verão; longe do carnaval, muito perto do natal.
Você não sabe a diferença do que significa “todo o tempo” e “complicar a vida”. Apenas prováveis problemas que repousam sobre olhos que fecham fácil com o toque nos cabelos. Eu gostaria da noite, uma canção para o mar, repousar mar adentro e me afogar naqueles lábios. Adormecer naqueles olhos e me sentir quente com o corpo todo molhado, com o corpo nu e suado.
E foi assim que morri afogado meia dúzia de vezes.
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