terça-feira, 11 de novembro de 2014

Further Back

Um aborto ao léu, inconsequente. E uma bala passeava pelas ruas da cidade à procura de alguém perdido que quisesse se encontrar. Não foi uma morte instantânea e isso deu margem a uma eternidade de dor, mas não se pode dizer que era, ao mesmo tempo, sofrimento. Afinal, não, não era.
— Se algum dia eu te ver com outro arrancarei seus dedos para que nunca mais segure nas mãos de ninguém.
— Engraçado você dizer isso porque eu nunca arranquei seus olhos.
— Acho que eu poderia arrancar sua língua também.
— E assim o que restaria?
— Você tem sorte de ainda estar viva.
— Você tem sorte de eu nunca ter te machucado.
Para isso não havia resposta.
— Me ligue de vez em quando.
— É que ando muito ocupado.
— Tenho saudades, às vezes choro.
— ...
Para isso havia muito que falar, mas nenhum dos dois ousou.
A luz, o frio. 
No quarto, no móvel ao lado da cama, fotografias desbotadas pelo frio. Seu corpo ardera tantas vezes naquele colchão velho que já não sentia mais frio algum, nem mesmo quando os ossos tremiam ele ousava usar um cobertor. Permanecia nu e assim cruzava o apartamento inteiro, de um canto a outro. Entrava no banheiro, saía do banheiro. Abria a geladeira e tomava água direto da garrafa para as visitas. Por alguns segundos olhava o branco no vazio que só contrastava com uma cebola cortada pela metade, duas garrafas d’água e três ovos.
Por muitos anos levou a vida na luz negra da escuridão. Respirava sofregamente. Solitário, procurava por uma mão e não achava nenhuma a não ser a sua já tão velha e conhecida, calejada do violão e do ônibus.
No seu quarto entrava e saía gente estranha quase todos os dias. Muitos pés já subiram naquela escada, alguns nunca mais desceram de volta, mas não se sabem onde foram parar. Talvez absorvidos pelo tempo ou sugados pela energia que saía de seu peito. Crescia cada vez mais intensa, cada vez mais profunda, cada vez mais inóqua.
No ínterim do sacrifício de perdoar, às vezes se permitia ao sortilégio de soltar um grito agudo enquanto tomava banho.
Ela apareceu e levou seus amigos, havia calcinhas por todos os lados. Aqui e ali uma pintura no cinza das paredes. O chão do apartamento ainda era frio. A cama era quente como nunca, ardia em chamas, mas parecia mais o inferno. Nunca foi fácil pra nenhum dos dois.
— Você comeu a minha mãe?
— Que pergunta é essa?
— Só responda se sim ou não.
— Sim.
Uma corrida em disparada pelas ruas da cidade. Ainda correu atrás, não encontrou ninguém. Correr não era muito o seu forte. Pior ainda correr atrás de alguém.
— Sabe quantas vezes eu liguei pra você ontem?
— Eu já disse que perdi o celular. Eu não faço a mínima ideia.
— E o que é isso aí na sua mão?
— Uma mulher achou e me devolveu, mas alguém tirou a bateria.
— Sei.
— Ah, se você não acredita não posso fazer nada, é problema seu!
Nunca soube muito bem o motivo de ela ter simplesmente sumido assim. Só chegou em casa e não havia ninguém e assim foram se passando os dias, todo mundo de uma hora para outra foi sumindo. Além dela seus amigos também sumiram. Ela levara consigo os amigos que conheceu através dele. Nenhum era seu amigo de verdade, concluiu um dia com sua cachaça barata.
Passou certa vez por uma avenida e viu pixado “further back”. Adotou essa frase como sua, fazendo companhia ao live and let die. Odiava Beatles e, por conseguinte, Paul também. 
O estampido foi seco e atingiu na barriga. Quando sentiu, instantaneamente, levou as mãos ao sangue.
Havia saído de casa dizendo ir à procura dela e corria por um beco. Era madrugada. Sangue sintetizando álcool. Pela primeira vez corria atrás de alguém. Estava perdido, mas finalmente se encontrou.
As faces mudam, mas nada parece mudar a dor.
Ao amanhecer formigas por perto e insetos.

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