quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Se você não é Fernando Pessoa, não escreva!

Anticristo disse certa vez que se escreve com sangue, escrever pode não ser complicado, mas é difícil. Porém, quando se chuta as saudades há sempre um lunático chamando para pisar na grama e isso nunca diz respeito somente a você. Ele fica lá na sombra, no lado escuro por onde andam os cavaleiros de Cidônia.
Dessa maneira, se você não é Fernando Pessoa, não escreva. Fernando Pessoa nunca escreveu, senão o mar, molhado com o sangue dos leprosos e imorais em stultifera navis: é doce morrer no mar; não, Caymmi, não é.
Álvaro de Campos também estava sorrindo quando leu isso pela primeira vez, mesmo sem saber quem era o tal de Pessoa que fez Belchior de olhos marejados. E seu riso era o mesmo do Syd when the madcap laughs, bem como do Ahab, louco, e bem como de Jonas: é um sorriso que mostra todos os dentes, assim que nem o meu, é um sorriso que morde.
Sob a égide da Lua ela não quis olhar o lado negro para onde queria levá-la, permanecendo sob a claridade roubada do Sol, mas coberta pela energia do corpo. E isso foi o que os alquimistas encontraram quando chegaram: it’s all over now, baby blue.
Mas era mentira, não havia acabado nada porque a saudade habita em muitos lugares e os sorrisos beijados parafraseiam que a “a saudade é o tudo que de repente virou nada ou é o nada que insiste em pensar ser tudo”, pois o nada insiste, insiste em existir. Ninguém ousa calar a boca com um beijo, pois nem mesmo os beijos lhes taparão a boca… em linha reta enquanto paira Für Elise ao redor com os pássaros.
Os sabores dos olhares, o cheiro das carícias, a dor póstuma dos afagos… nada disso é vício nem aventura, são reminiscências do que jamais se acabará, nem mesmo por teimosia ou insegurança.
E é por isso que se você não é Fernando Pessoa, não escreva. O sangue sifilítico de Nietzsche escrito em cartas sujas jamais justificará o cigarro com marcas de batom, nem as leituras e citações que rasgam as madrugadas sonolentas na hora mais escura da noite. Mesmo que, preta, teima em dormir para não ver a aurora, sob efeito da Lua, sob efeito do medo do perdão, sob o efeito de Áries.
O sangue escrito não justifica sequer o beijo no rosto, o espelho e muito menos o câncer e a depressão porque todos estão fartos de semideuses, não quero cigarros desta tabacaria!

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