terça-feira, 23 de setembro de 2014

A gente ainda nem começou

Estava lendo o jornal no bar, tomando um café e comendo um pão com margarina. As casas da rua começaram a ter grades nas janelas, mas o bar continuava sem grade nenhuma. As portas abertas, a sinuca na calçada, um rádio baixinho e ele ali lendo o jornal. Sem camisa, a barriga protuberante nem chamava atenção, barba por fazer, respiração arquejante.
Conferia a coluna de esportes, os times locais iam mal nos campeonatos nacionais e o Ferroviário havia perdido novamente, em casa. O ar do Jardim Guanabara continuava o mesmo, mas as notícias nos jornais eram ruins hoje, ontem foram também e ele sabia que amanhã seriam piores, depois de amanhã também e assim por diante.
Passa o garoto gordinho de bicicleta, filho da vizinha chata, e ele grita algum insulto de modo a brincar. O menino devolve:
— Vai se lascar.
Ri bastante.
— Vai ali comprar a mistura pra tia. Meio frango, uma cebola, um tomate e cheiro verde, que acabou.
— Cadê o dinheiro?
— Passa no bar e pede ao teu tio.
A postura do tio sentado assistindo televisão era de certa maneira imperiosa, apesar da cena esdrúxula de um homem gordo de meia idade esparramado em uma espreguiçadeira com o ambiente repleto de engradados de cerveja e garrafas de coca cola.
Enquanto seu tio procurava o dinheiro pelos bolsos olhou para o jornal em cima do engradado e leu rapidamente algumas manchetes: “jovem é assassinado”, “acidente de trânsito deixa mortos”, “escândalo de corrupção”. Lembrou-se de uma vez estar cantando Cachorro Urubu “todo jornal que eu leio me diz que a gente já era, que já não é mais primavera” e de repente levantar o olhar e vê seu mesmo tio com ar de orgulhoso na porta o vendo cantar, sentiu vergonha, sentiu afeto.
Em casa, a mulher prepara o almoço enquanto as crianças assistem desenhos animados na TV. O cheiro do tempero no feijão e do arroz sendo refogado se espalha pela casa. No rádio toca um cd da Ivete Sangalo enquanto ela canta todas as músicas sem errar nenhum verso.
Era um casal jovem, com suas cerca de três décadas cada, quase quarenta anos e uns vinte de casados.
Casa limpa, frutas sobre a mesa.
— Vai tomar banho pra ir pra escola!
— Vou já, mãe. Deixa só terminar os páurenjer.
— Vai logo, menino!
— Peraí, mãe.
Almoço servido, banana cortada em rodelas misturada com arroz e feijão no prato. Farinha, pimenta, azeite, salada de alface, frango cozido, suco de caju. Mesa farta.
Crianças na escola e ninguém para atender após o almoço. Melhor fechar o bar um tempo. O sobrinho fica em casa, procura por revistas, quer ler algo. Os programas da televisão nesse horário são bestas e não tem nenhum DVD que não seja arranhado. Em cima estão seus tios tirando um cochilo após comer. Sobe as escadas sem se preocupar em não fazer barulho. A casa era projetada com um só corredor para todos os cômodos e ao pôr os pés depois da cozinha, chegando ao quarto, a tia de pernas abertas com aquele homem em cima dela enquanto gemia “ai, nego, ai, nego”. Dá meia volta e desce em silêncio. Se deita no sofá e assiste o Video Show, na Globo. Procura moedas pelo sofá e encontra quase cinco reais.
Na locadora de video game enquanto faz transações e muda as táticas de seu time no Winning Eleven se recorda da cena, pensa nas vezes em que viu a tia nua, peitos bonitos. Sentiu vontade de se masturbar. Guardou a hora e foi à lan house, jogou Counter Strike, perdeu na maioria das partidas. Olhou um site pornô, mas algum receio sem motivo aparente o fez fechar e ir para casa.
— Onde tu andava, menino?
— Na casa da tia.
— Almoçou?
— Almocei sim.
Na TV passava algum programa de auditório da tarde, sua mãe fazia crochê. Sentiu vontade de estar na escola, não havia aula hoje, queria falar com alguém sobre o que viu, mas não havia ninguém. Permaneceu com isso na mente.
À noite se masturbou pensando nos peitos da tia e em seu gemido, abriu o velcro do calção com cuidado para não acordar a mãe. Obviamente ela estava acordada, mas fingia que nada acontecia. Nem sequer ejaculava ainda.
Sábado, como quem tem a certeza do que faz, saiu de casa levando sua coleção de tampas de garrafa mais uma vez em direção à casa da tia. Ao passar pelo bar lotado do tio que ficava no caminho vai pedir a bênção, chegando lá encontra o portão aberto, mas não a encontra em casa. A TV estava ligada e ninguém assistindo, o ventilador na sala também ligado. Sobe as escadas fazendo barulho, como sempre, e ao pôr os pés no quarto vê o primo mais novo que ele por trás de um dos meninos da vizinhança deitado de bruços sobre a cama. Os dois se assustam. Ele ao invés de simplesmente voltar em silêncio como fez da outra vez permaneceu lá sem saber o que fazer.
— Vem meter nele também.
— Não.
— Então fica olhando pra ver se vem gente.
E lá ficou, alguma coisa o fez ficar por lá, mas alguma coisa também o causava ojeriza.
— Não conta pra ninguém.
— Beleza.
Quando descem sua tia olha estranho, mas finge dar de ombros. As tampinhas de garrafa em seu bolso fazem barulho.
— Vamo pedir dinheiro ao pai pra ir jogar.
— Bora.
O tio bêbado lhes faz um cafuné, diz algumas brincadeiras com os dois e os bêbados por lá riem alto.
— Vamo jogar jogo de carro, de dois.
— Vamo.
De volta em casa brinca com suas tampinhas. Na sua cabeça a imagem de pessoas em cima umas das outras ferve, tenta não pensar, mas a imagem permanece e na noite de sábado quis dormir abraçado com sua mãe na cama. Estava excitado, ela pareceu não se importar.

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