“Nessa cama tinha uma vó”. Pensa o menino enquanto voltava do banheiro em direção à sala para continuar a ler seus gibis e passou em frente ao quarto fechado, mas limpo e cheiroso, arrumado. Certa vez entrara enquanto a mãe arrumava o quarto já vazio. Criança, não fazia a mínima ideia do que aquilo representava e ficava até chateado, pois ele mesmo não tinha um quarto só para si! Por que diabos haveria daquele cômodo ficar ali, vazio?!
Ia à escola e em sua lancheira não havia mais suco de maçã. No lugar uma maçã inteira e um suco industrializado de caixinha sabor uva. Ele nem gostava mesmo do suco feito pela avó.
— Hoje eu acordei e fui fazer tricô.
— A bença, vó.
— Deus te abençoe, meu filho.
Sorriso.
— Hoje eu acordei e fui fazer tricô.
— A bença, vó.
— Deus te abençoe, meu filho.
Nenhum tricô.
O tempo parecia brincar de alguma coisa, quase uma entidade. Isso tudo dava àquele momento todo um toque mágico e não era uma velha solitária, pois sempre rodeada de filhos e filhas, netos e netas, gatos e gatas, os quais repetiam as mesmas palavras, mas não o mesmo pensamento, salvo o “eu te amo” que ninguém ousava dizer naquela casa.
Naquele telhado tinha um gato e naquela parede tinha uma aranha. Naquela panela tinha feijão. Naquele prato tinha baião com banana em rodelas e naquela mesa tinha uma família. No café depois do almoço havia um pai, os pés ainda sujos do roçado, botas grandes, bigode grande, cabelo curto. Ao lado da cadeira de balanço havia uma mãe, cansada após ter lavado a louça. No cheiro de gordura havia uma mão e nessa mão havia unhas quebradas. Nos ossos e restos de comida havia cães. Um pouco distante, mas também no mesmo lugar, havia gatos. Havia porcos, havia galinhas e um galo, havia patos, havia macaquinhos nas árvores, havia gaiola onde havia pássaros. Havia muitas coisas e faltava pouco. Fora a velha que não se apercebera de muita coisa ali, nem dela mesma. Era estranho porque era como se não houvesse ela, apesar de que naquela casa nada era mais presente do que seu cabelo branco e o seu cheiro de urina.
Uma responsabilidade compartilhada por uma certa dor. O menino certa vez pensou “ela devia morrer” e ela morreu. Mais tarde pensou nisso de novo e quis se culpar, até chorou, mas uma menina lhe beijava o rosto, não pôde chorar direito porque se lembrara de que vindo daquela casa ninguém diz “eu te amo”. Nas mãos havia corpo. No sexo havia amor. Sim, havia. Pois havia muitas coisas e faltava pouco. Fora a velha morta que agora sim é que não se apercebia de absolutamente nada, quem sabe, aliás? Apesar de o seu quarto vazio ser o cômodo mais cheio da casa. Sua cama com cheiro de urina, suas sandálias ao pé do colchão, ao lado do penico que vez ou outra fazia barulho de madrugada, mais barulho que os pais do menino faziam à noite quando ele, ainda acordado, ouvia e às vezes até via.
Havia uma cidade naquelas pessoas e havia ruas naquelas carroças. Havia carroças naqueles animais e havia crianças naquelas professoras do jardim. Havia praça naquela igreja. Foi lá que a velha iniciou seus amores, assim nasceu um pai, que havia no roçado e onde havia uma mulher. Só assim pôde haver um menino naquela mãe e que odiava aquele quarto, que não pôde chorar mais tarde porque a amada apaixonada não deixou, tapando-lhe a boca com seus beijos, enxugando com ternura os seus olhos e molhando com sua língua o espaço antes ocupado pelas lágrimas.
Da igreja, do útero, da vagem de feijão debulhada em cima da mesa até o café servido com cuscuz. Do cuscuz com café, do fumo ao fim da tarde, do silêncio quando batem as seis horas até o quarto vazio impregnado com o cheiro da urina da velha. Naquela avó havia um quarto.
O menino já homem chorou quando sintonizou um rádio velho de pilha, o qual na antena havia um pai, que, por sua vez, no pai havia um bigode e botas grandes. Seus filhos e a mulher assustados, afinal quem vem daquela família onde havia uma casa não diz “eu te amo”.
Quando batem as seis horas
de joelhos sobre o chão
O sertanejo reza a sua oração
Ave Maria
Mãe de Deus Jesus
Nos dê força e coragem
Pra carregar a nossa cruz
Nesta hora bendita e santa
Devemos suplicar
A Virgem Imaculada
Os enfermos vir curar
Ave Maria
Mãe de Deus Jesus
Nos dê força e coragem
Pra carregar a nossa cruz
Naquela canção havia um pai fumando. Naquele pai com seu cigarro de fumo havia um abraço. Naquele abraço havia um poema. Naquela poema havia Gonzagão. E havia uma mulher. Uma mulher que faz café e limpa urina, faz baião e cuscuz, corta banana em rodela e debulha vagem madura. Naquelas panelas havia afeto.
O menino já muito tarde, muito tempo depois, viaja. Naquela viagem havia desejo. Naquele carro havia uma família. Naquela família havia palavra e naquela palavra havia silêncio.
De volta a casa havia ainda um quarto. Naquele mato havia um sítio. Naquele sítio havia uma cerca e um homem de olhos marejados, barba feita e roupa formal. Naquele chão havia um sapato engraxado. Naquela graxa havia suor e moedas. Naquelas moedas havia fome. Naquela fome havia outro homem, em algum lugar.
“Naquela cama tinha uma vó”. Hoje nessa cama há saudade. Nessa saudade há um peito. Nesse peito há um “eu te amo”. Nesse eu te amo há uma cisão, pois naquele momento o menino decide ficar. Não lembra o nome daquela mulher ao seu lado nem daquelas duas crianças se entreolhando assustadas. Ele tem cheiro de urina.
— Já chega das suas doidices, eu tô indo embora.
— Por favor, leve o carro e todo o meu dinheiro.
Havia adeus naquele amor.
Havia beijo naquela paixão.
Naquela cama onde tinha uma vó agora só há saudade.
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